Aventuras de Alice no País das Maravilhas. "O racionalismo versus o non-sense em Lewis Carroll"
Giovana Maria de Sousa
Giulia Regina Vicari Vento nº 7612583
Jéssica Louise Werner nº 9329062
Karla Regina Stopa nº 8608753
Marisa de Souza Alves nº 8643687
Matheus de Souza Casari nº 8629617
Matheus Morais Alves Dias nº 9334260
Nancy Mendes Torres Vieira nº 8569361
Natália Dias da Silva nº 9334493
Rodolfo Henrique Oliveira da Silva nº 8977596
Zainne Lima Matos nº 9052172
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quinta-feira, 19 de maio de 2016
As Meninas Do Condado: a imagem do feminino na obra da Condessa de Ségur
Cristiane Regina Pereira, nº USP 5418123.
Olivia Souza Ferreira Maciel, N. USP 7610598
Vivian koga, N. USP: 6831954.
Natalia
Natália Felix Nery Santana, N. USP: 6912609
Deborah Wright N. USP :9333901
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Cinderela: Competição Feminina e Relação Intersemiótica
Aline Moura nºUSP 8073494
Caroline Guerra nºUSP 8073469
Pérola Cattini nºUSP 7610581
Acesse o blog: http://literaturainfantil.tumblr.com/
terça-feira, 10 de maio de 2016
Bela Adormecida Através do Tempo
Camila Cristina S. Silva 7614863 José Paulo Parra Palumbo 7616462 Lara de Souza Melicio Rodrigues 8975301 Michelle Akemi Miura 8024529 Rodolfo Augusto Azevedo Palu 8629301
''O conto infantojuvenil conhecido no Brasil como “A Bela Adormecida” possui uma história de longa data se levarmos em conta as inúmeras versões que o modularam ao decorrer do tempo, mesclando diferentes elementos e influenciando na composição das adaptações mais modernas, bem como nas releituras ocorridas em outros meios, como o cinema e a também a televisão.
Como objeto de nosso trabalho, apresentaremos, em ordem cronológica, quatro versões fundamentais do conto, que remetem a diferentes épocas e lugares. Cada uma delas demonstra artifícios distintos na narrativa, além, é claro, das opções estéticas de cada um dos autores, que escolheram recontar ou omitir certos detalhes e acontecimentos presentes em outras versões, dando origem, portanto, a contos que podem ser considerados como diferentes entre si, embora compartilhem de um núcleo semelhante.''
CÂNDIDO, Antônio. A literatura e a formação do homem. In: Ciência e
cultura. São Paulo: USP, 1972.
CÂNDIDO, Antônio., GOMES, Paulo Emílio Salles., PRADO, Décio de
Almeida e ROSENFELD, Anatol. A Personagem de Ficção. São Paulo:
Perspectiva, 2009.
COELHO, Nelly Novaes. A literatura infantil: história, teoria, análise. 4ª ed.
São Paulo: Quíron, 1987.
CRANE, Lucy. Stories from the Collection of the Brothers Grimm. Walter
Crane, illustrator. London: Macmillan & Co., 1882.
BAKER, E. D. The Wide-Awake Princess. Bloomsbury: 2010.
BLAND, Alexander. A History of Ballet and Dance in the Western World. New
York: 1976.
BREED, Stephanie. Gustave Doré: The Magic Illustrations of Charles
Perrault’s Contes de Fées. Syracuse University. Nova Iorque: 2015.
DESCONHECIDO. Balé. Disponível em: .
Acesso em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Balé 23 de abril de 2016.
DESCONHECIDO. Piotr Ilitch
GAIMAN, Neil; Riddell, Chris. The Sleeper and the Spindle. Bloomsbury:
2014.
GRIMM, Jacob e Wilhelm. Hansel and Gretel and Other Stories by the
Brothers Grimm. Kay Nielsen, illustrator. London: Hodder and Stoughton,
1925.
HETZEL, J. Les Contes de Perrault, dessins par Gustave Doré. Paris: 1867.
LEE, Carol. Ballet In Western Culture: A History of its Origins and Evolution.
New York: 2002
ROGER. A História do Ballet. Disponível em:
. Acesso
em: 23 de abril de 2016.
VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estrutura mítica para escritores.
São Paulo: Aleph, 2015.
Sapos, Princesas e suas Metamorfoses
Bárbara Facci Braga - 8026091
Lisa Bhering Santana - 8023491
Luciana Soares Dubra - 3292392
Norma Odara Fernandes da Silva - 8026240
Se você perguntar para uma criança o que acontece quando uma princesa beija um sapo, ela provavelmente vai responder que o sapo virará um Príncipe. O Príncipe Sapo é um dos contos de fadas mais conhecidos do ocidente e a inclusão da narrativa como o conto de abertura do livro dos irmãos Grimm certamente ajudou a sua divulgação até os dias de hoje. O conto inspirou a Disney a lançar em 2009 o longa- “A princesa e o Sapo”, de 2009.
Foi um desafio para o estúdio a adaptação do conto, são duzentos anos de diferença entre as versões. Os contos de fada trazem uma mensagem para as crianças, ajudam a dar ordem a seu mundo. Mas o mundo mudou, assim como as crianças. Assim, a Disney teve de fazer uma série de escolhas para adaptar o conto não apenas para o cinematográfico, mas também para o mundo contemporâneo.
Nesse blog pretendemos não apenas listar uma série de diferenças entre as obras nos dois formatos, mas a implicação dessas mudanças em termos de narrativa e o impacto que isso significa na mensagem do filme para os espectadores, especialmente para as crianças. Venha conhecer mais dessa história com a gente!
ACESSE O BLOG: http://tianaprincesaeosap.wix.com/meusite
segunda-feira, 2 de maio de 2016
As Crônicas de Oz: o
leão, a bruxa e a estrada de tijolos amarelos
Ariel Engel Pesso nº USP 6767917
“There is no place like home”
- Dorothy, The Wonderful Wizard of Oz
“A ficção é um lugar
ontológico privilegiado: lugar em que o homem pode viver e contemplar, através
de personagens variadas, a plenitude da sua condição, e em que se torna
transparente a si mesmo; lugar em que, transformando-se imaginariamente no
outro, vivendo outros papéis e destacando-se de si mesmo, verifica, realiza e
vive a sua condição fundamental de ser autoconsciente e livre, capaz de
desdobrar-se, distanciar-se de si mesmo e de objetivar a sua própria situação”
- Anatol Rosenfeld, Literatura
e Personagem
(In: CÂNDIDO, Antonio et al. A
Personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2007, pp. 9-49)
A
obra O Mágico de Oz está para os
Estados Unidos assim como Alice no País
das Maravilhas está para a Inglaterra: é o romance infantil mais lido e
apreciado pelos jovens e adultos norte-americanos, permitindo-se dizer que
fazem parte da cultura popular dos EUA. Quando o livro de Frank Baum foi
publicado em 1900, foi um sucesso de público e de crítica; o próprio autor, na introdução
da obra, já se referia ao livro como “um conto de fadas modernizado” (“modernized
fairy tale”):
Folklore, legends, myths
and fairy tales have followed childhood through the ages, for every healthy
youngster has a wholesome and instinctive love for stories fantastic, marvelous
and manifestly unreal. The winged fairies of Grimm and Andersen have brought
more happiness to childish hearts than all other human creations.
Yet the old time fairy
tale, having served for generations, may now be classed as
"historical" in the children's library; for the time has come for a
series of newer "wonder tales" in which the stereotyped genie, dwarf
and fairy are eliminated, together with all the horrible and blood-curdling
incidents devised by their authors to point a fearsome moral to each tale.
Modern education includes morality; therefore the modern child seeks only
entertainment in its wonder tales and gladly dispenses with all disagreeable
incident.
Having this thought in
mind, the story of "The Wonderful Wizard of Oz" was written solely to
please children of today. It aspires to being a modernized fairy tale, in which
the wonderment and joy are retained and the heartaches and nightmares are left
out.
L. Frank Baum
Chicago, April, 1900
L.
Frank Baum (1856-1919)
Grande apreciador
de histórias infantis, nada mais natural do que escrever a sua própria. O
sucesso foi tamanho que nos anos que se sucederam Baum escreveu mais quatorze
livros sobre a Terra de Oz em vida e postumamente publicaram-se mais dois de
sua autoria – daí porque a referência às Crônicas de Nárnia. Contudo, nem tudo
foi tranquilo: Baum passou a disputar – e depois a dividir – com William
Wallace Denslow os direitos autorias sobre o livro de 1900, pois este fez as
ilustrações das personagens (algumas das ilustrações vem aqui reproduzidas na
seção 3.4).
O legado de O Mágico de Oz e a fascinação que ainda
hoje causa nas crianças de todo o mundo foram a razão pela qual escolhi
analisar esta obra no seminário virtual de Literatura Infantil e Juvenil:
Linguagens do Imaginário I. Muitas são as possibilidades com que poderia
abordar a obra e, com base nisso, resolvi abordá-la em comparação com o icônico
filme de 1939 dirigido por Victor Fleming e como se deu a adaptação do meio
literário ao meio cinematográfico. Fora isso, já lanço uma pergunta, no mínimo,
curiosa: o que os filmes de Star Wars e O Mágico de Oz têm em comum? Você pode
dizer: ora, nada! Pois bem; e se eu te disser que ambos compartilham da mesma,
digamos, “receita”? Você acreditaria? É isso que procuro mostrar quando analiso
o enredo do filme.
Começarei analisando
os principais aspectos da obra literária: enredo, personagens, foco narrativo,
tempo e espaço – entre o primeiro e o segundo, faço uma breve incursão semiótica
baseada na Morfologia do Conto
Maravilhoso (1928) de Vladimir Propp. Em seguida, abordo as principais
questões atinentes ao filme: produção, enredo, análise semiótica – desta vez
combase em The Hero with a Thousand Faces
(1949), de Joseph Campbell e The Writer's
Journey (1998), de Christopher Vogler –, adaptação do livro ao cinema e
diferenças entre os dois. Por fim, teço algumas considerações de caráter geral
na conclusão do trabalho. Não analisei as alegorias que a história traz sobre o
Populismo norte-americano no final do século XIX ou o impacto e presença do
filme no imaginário LGBT, pois senão o trabalho ficaria mais extenso do que já
está. Espero que gostem.
O
enredo de O Mágico de Oz pode ser
assim resumido: Dorothy é uma menina que vive no Kansas, com seu tio Henry, sua
tia Em e seu cachorrinho, Totó. Com a chegada de um ciclone, ela se vê
transportada para o mundo mágico de Oz. Ao aterrissar na País dos Munchkins,
ela percebe que sua casa caiu em cima da Bruxa Má do Leste e, vestindo os Sapatos
de Prata da feiticeira, segue viagem através da estrada de tijolos amarelos
rumo à Cidade das Esmeraldas, para falar com Oz, o Grande Mágico, e conseguir
voltar para casa – não sem antes receber um beijo na testa da Bruxa do Norte, que
era boa.
No
caminho, ela encontra e salva um Espantalho sem cérebro e um Lenhador de Lata
sem coração e enfrenta um Leão sem coragem. Ao final, todos se juntam à menina e
o cãozinho para pedir para o grande Oz o que cada um mais deseja: um lar, um
cérebro, um coração e coragem.
Assim,
seguem viagem rumo à Cidade das Esmeralda, não sem antes passar por alguns
apuros, como fugir dos Kalidahs, criaturas monstruosas com corpo de urso e
cabeça de tigre. Ao atravessarem um rio largo, o Espantalho ficou para trás,
agarrado à uma vara no meio do rio, mas foi resgatado por uma Cegonha.
Atravessaram também o campo das papoulas da morte, cujo aroma fazia a pessoa
adormecer e se não fosse logo levada para longe das flores, continuaria a
dormir para sempre. O Leão não conseguiu sair a tempo e ficou lá, adormecido.
Em
seguida, eles encontram e salvam a Rainha dos Ratos do Campo, que estava sendo
perseguida por um grande Gato Selvagem. Os amigos então pedem que ela e seus
súditos salvem seu amigo Leão, o que eles fazem com a ajuda de uma carroça
fabricada pelo Lenhador de Lata.
Ao
retomarem sua jornada, eles se hospedam na casa de um dos moradores do País de
Oz, que era verde – ao contrário do País dos Munchkins, que era azul. Ao
chegarem finalmente à Cidade das Esmeraldas, na manhã seguinte, o Guarda dos
Portões os conduz até um grande salão cravejado de esmeraldas e com o teto em
arco, e pede que eles coloquem óculos com lentes verdes para os proteger do
brilho e esplendor da Cidade.
Ao
entrarem na Cidade, tudo era verde: da calçada de mármore verde às roupas e
pele esverdeada dos habitantes, passando pelas lojas, comida e moedas. Entraram
finalmente no Palácio de Oz, onde descobriram que o mágico iria receber, a cada
dia, um por vez – por isso se hospedaram no Palácio. Na manhã seguinte, Dorothy
entra na sala de Oz, Grande e Terrível, representado por uma Cabeça imensa
sobre um trono de mármore verde que se erguia no meio do salão. Observando que
a menina possuía os sapatos de Prata da Bruxa Má do Leste e o beijo na testa da
Bruxa do Norte, Oz diz que somente irá satisfazer seu desejo se ela matasse a
Bruxa Má do Oeste.
Nos
dias seguintes, Oz recebeu o Espantalho, o Lenhador de Lata e o Leão Covarde.
Mas, ao invés da Cabeça imensa, o grande mágico tomou a forma de uma linda
Mulher, um Monstro terrível e um Bola de Fogo, respectivamente. Em todas as
ocasiões, ao pedirem seu desejo, para obtê-lo Oz dizia que eles deveriam matar
a Bruxa Má do Oeste.
No
dia seguinte, tomaram rumo à Terra dos Winkies, onde a Bruxa vivia. Mesmo tendo
um só olho, ele era poderoso como um telescópio e tudo enxergava. Ao avistar o
grupo de amigos, a feiticeira tocou um apito de prata chamando Lobos imensos,
pedindo-lhes que despedaçassem os quatro. O Lenhador de Lata, atento, conseguiu
rechaçar o ataque dos animais, matando um por um.
Ao
ver o que fizeram com seus lobos, a Bruxa tocou o apito de prata duas vezes, ao
que apareceram Corvos. Desta vez foi o Espantalho que os enfrentou, matando-os
todos. A Bruxa então soprou três vezes o apito, ao que apareceu um enxame de
Abelhas negras. Cobertos da palha do Espantalho, as Abelhas não perceberam a
presença de Dorothy, de Totó e do Leão, ao que só picaram o Espantalho e o
Lenhador de Lata, quebrando seus ferrões na lata.
Enfurecida,
a bruxa chamou uma dúzia de seus escravos, que eram os Winkies; ao tentarem
atacar o grupo, fugiram com o rugido do Leão. A Bruxa então convocou os Macacos
Alados, que conseguiram liquidar com o Lenhador de Lata e o Espantalho e
capturar o Leão, levando-o ao castelo dela. Ao tentarem se aproximar de
Dorothy, perceberam a marca do beijo em sua testa e perceberam que não podiam
fazer nada, porque ela era protegida pelo Poder do Bem, que é maior que o Poder
do Mal. Assim, levaram-na também ao castelo da feiticeira.
Ao
ver os Sapatos de Prata que Dorothy usava, a Bruxa temeu por sua vida e decidiu
não fazer nada contra a menina, a não ser escravizá-la, obrigando-a a lavar
louças e panelas, esfregar o chão e alimentar o fogo de lenha para não apagar.
Tentou prender o Leão com arreios de cavalo para que ele puxasse sua carruagem,
mas assim que abriu a porta da jaula o Leão deu um forte rugido; como não
poderia prendê-lo aos arreios, decidiu que ele morreria de fome. Mas toda a
noite, quando a Bruxa ia dormir, Dorothy levava comida da despensa para o Leão.
A
menina não sabia, mas a Bruxa não tinha coragem de fazer nada contra ela por
causa da marca do beijo que ela trazia na testa. A vida de Dorothy ficou muito
triste, pois a possibilidade de voltar ao Kansas estava cada vez mais distante.
A Bruxa queira roubar os sapatos da menina, pois eles lhe dariam um poder maior
de tudo o que tinha perdido ao tentar capturá-la, mas a menina nunca os tirava
do pé, apenas de noite ou na hora do banho: como tivesse medo de escuro e de
água, a Bruxa não conseguia o que queria.
A
feiticeira armou uma artimanha para cima de Dorothy e conseguiu um pé do
sapato, mas a menina ficou tão furiosa que jogou o balde de água na Bruxa, que
derreteu! Tornando-se assim dona do Castelo, a menina libertou o Leão e os
Winkies, salvando também o Lenhador de Lata e o Espantalho. Um belo dia, ao
lembrarem da promessa de Oz, os amigos decidem voltar à Cidade das Esmeraldas,
desta vez com a ajuda dos Macacos Alados.
Ao
chegarem à Cidade, tentaram falar com Oz, mas nada do mágico. Ameaçando
chamarem novamente os Macacos Alados, o mágico não teve outra saída a não ser
receber os quatro viajantes na Sala do Trono. Eles se assustaram ao não verem
ninguém no salão, mas uma Voz logo os interpelou, dizendo ser o grande Oz. Ao
pedir mais tempo para realizar os desejos, o Leão ficou irado e, soltando um
rugido longo e muito alto, assustou Totó, que tropeçou no biombo que ficava num
dos cantos do salão. O biombo caiu num estrondo, revelando um velho miúdo,
careca e com o rosto todo enrugado, que parecia tão surpreso quanto eles. Este
então revelou ser o Grande e Terrível Oz – na verdade, um homem comum, um
farsante, que logo revelou todos os truques pelo quais enganava seus súditos, inclusive
como fizera para projetar as imagens que os amigos viram quando ali estiveram,
há muito tempo.
Na verdade, o
homem era de Omaha e trabalhava como balonista de circo, quando veio parar em
Oz e construiu a Cidade das Esmeraldas. Em realidade, até a Cidade era uma
farsa: as pessoas viam o verde por causa dos óculos que vestiam e não bela
beleza natural do local. O falso mágico prometeu cumprir, a sua maneira, o
desejo de cada um e eles prometeram não revelar a identidade do pobre velho.
No
dia seguinte, Oz, o Grande Impostor, recebeu o Espantalho, o Lenhador de Lata e
o Leão e deu a cada qual o que queria, mas de uma forma diferente: ao primeiro,
colocou em sua cabeça farinha de trigo misturada com vários alfinetes e
agulhas; ao segundo, colocou no peito um coração de seda e recheado de serragem
e, ao terceiro, deu um líquido para tomar e cada qual, contente com o
“placebo”, retornou para junto de Dorothy que teve de esperar mais quatro dias
antes de ser chamada novamente ao encontro de Oz.
O
mágico e a menina, então, fabricam um balão no qual os dois pretendem voltar ao
Kansas, para ela reencontrar seus tios, e a Omaha, porque ele se cansou de
tanta mentira. Na hora de levantar voo, porém, Dorothy não encontrava Totó e,
quando o fez, não conseguiu chegar a tempo no balão, que voou para longe com o
mágico...
A
aventura, contudo, não acabou, pois Dorothy ainda precisava voltar para sua
casa, pois “there is no place like home”.
Na ausência de Oz, quem governa agora a cidade é o Espantalho, e os quatro amigos
se reúnem na Sala do Trono para tentarem encontrar uma solução para Dorothy.
Eles chamam os Macacos Alados, na esperança de que levem a pobre garota de
volta a seu lar, mas eles não podem ajudar porque só vivem nas terras de Oz. Os
amigos resolvem, então, consultar o soldado de barba verde que, antes, permitia
ou não o acesso à sala do Grande Oz. Ele sugere que procurem Glinda, a bondosa
Bruxa do Sul e que governa os Quadlings.
Os
quatro amigos seguem então viagem para o País do Sul até que encontrem árvores
que lutam e impedem que continuem sua jornada, mas o Lenhador de Lata corta os
galhos e eles conseguem avançar. Eles chegam a uma muralha alta, feita de
porcelana branca e o Lenhador mais uma vez os ajuda, fabricando uma escada com
a madeira da floresta que acabaram de atravessar. Ao subir a escada, depararam-se com o País
de Louça, onde tudo era feito de porcelana: o solo, as casas (pintadas das
cores mais vivas), as cercas, os animais e até as pessoas. Atravessaram essa
região com muito cuidado para não quebrar nada e depois de passar mais um muro
(dessa vez menor que o primeiro), chegaram a uma floresta.
No
dia seguinte, os amigos encontraram vários animais em uma clareira, no que era
uma reunião. O Leão então deu cabo a uma aranha imensa que estava assustando os
animais da floresta e tornou-se o Rei dos Animais, prometendo voltar para
reinar assim que conseguisse com que Dorothy voltasse a seu país de origem.
Avançaram
um pouco mais e chegaram a uma encosta inclinada, repleta de rochedos e com
pequenos homenzinhos baixos e corpulentos, com uma cabeça enorme. Eles não
deixaram os viajantes passarem, no que eles chamam os Macacos Alados pela
terceira e última vez e voam até o País dos Quadlings. As casas eram pintadas
de vermelho, assim como eram amarelas no País dos Winkies e azuis no País dos
Munchkins.
Eles
finalmente chegam ao castelo da boa Bruxa Glinda e, em posse do Gorro de Ouro,
que concedia os serviços dos Macacos Alados por três vezes, a Bruxa disse que
faria o Espantalho retornar à Cidade das Esmeraldas, o Lenhador de Lata ao País
dos Winkies, antes governado pela Bruxa Má do Oeste, e o Leão à floresta, cada
qual para virar o governador da respectiva localidade. A Bruxa então explica
que os Sapatos de Prata que Dorothy carregava desde o primeiro poderiam levá-la
de volta para casa: bastava que ela batesse os calcanhares dos Sapatos três
vezes e dizer aonde ela queria ir. Após se despedir dos amigos, ela, com seu
cãozinho nos braços, assim o fez e, depois de três passos, estava novamente em
Kansas, mas os Sapatos caíram durante o voo de volta e perderam-se para sempre
no deserto que circundava a Terra de Oz. Dorothy se viu de novo na companhia do
Tio Henry e da Tia Em e do seu fiel companheiro, Totó.
O
enredo de O Mágico de Oz apresenta
como pano de fundo a história de Dorothy (protagonista e actante), que se vê
transplantada misteriosamente para a Terra de Oz e é obrigada a embarcar em uma
jornada para retornar a sua casa no Kansas. Ao longo do caminho, ela faz amizade
e passa a viajar junto com três companheiros: um Espantalho, um Lenhador de
Lata e um Leão. Os quatro desejam algo (há um objeto de desejo): casa, cérebro,
coração e coragem. Através de performances ocasionadas por competências de cada
um, os quatro atingem seu objetivo.
Segundo
PROPP (2006), há trinta e uma funções da narrativa: (1) Afastamento, (2) Proibição,
(3) Transgressão, (4) Interrogatório/Reconhecimento, (5) Informação/Entrega, (6) Ardil, (7) Cumplicidade, (8) Dano/Carência,
(9) Mediação, (10)
Aceitação, (11) Partida (do
herói),
(12) 1ª Prova, (13) Reação (do herói), (14) Recepção do auxiliar mágico, (15)
Deslocamento, (16) Combate (2ª prova), (17)
Marca, (18) Vitória, (19) Reparação do dano, (20) Retorno, (21) Perseguição,
(22) Salvamento, (23) Chegada (incógnita), (24) Impostor – impostura, (25)
Tarefa Difícil (3ª prova), (26) Êxito, (27) Reconhecimento (do herói), (28) Desmascaramento (do
falso herói), (29) Transfiguração, (30) Punição e (31) Casamento/Prêmio. Com
base nisso, tentarei analisar o enredo de O
Mágico de Oz na tabela abaixo:
Função da Narrativa
O
Mágico de Oz (1900)
Afastamento
Dorothy vive com os
Tios (é órfã)
Proibição
Com a chegada do
ciclone, Tia Em não permite que Dorothy fique em casa
Transgressão
Totó se esconde debaixo
da cama e Dorothy vai busca-lo
Interrogatório/Reconhecimento
Informação/Entrega
Para voltar para o
Kansas, deve encontrar o mágico Oz na Cidade das Esmeraldas
Ardil
Cumplicidade
Dano/Carência
Dorothy não está mais
no Kansas
Mediação
Beijo protetor da Bruxa
do Norte
Aceitação
Sapatos de Prata e
estrada de tijolos amarelos
Partida
Dorothy inicia sua
jornada rumo à Cidade das Esmeraldas
1ª prova
Espantalho/Lenhador de
Lata/Leão Covarde
Reação
Fuga dos Kalidahs/Travessia
do rio/Travessia do Campo das papoulas mortais
Recepção do auxiliar
mágico
Oz, Grande e Terrível
Deslocamento
Ida ao Castelo da Bruxa
Malvada do Oeste, no País dos Munchkies
Combate (2ª prova)
Lobos/Corvos/Abelhas/Macacos
Alados/escravização de Dorothy
Marca
Dorothy recupera um par
dos Sapatos de Prata (?)/Gorro de Ouro
Vitória
Bruxa Malvada do Oeste
derrete
Reparação do Dano
Libertação dos
Winkies/reunião dos 4 amigos
Retorno
Volta à Cidade das
Esmeraldas com os macacos Alados
Perseguição
Salvamento
Chegada
Chegam à Cidade das
Esmeraldas
Impostor – impostura
Descobrem a identidade
do mágico de Oz Partida do mágico de Oz
Tarefa Difícil (3ª
prova)
Viagem para o País do
Sul/Árvores que impedem seu progresso/País de Louça/Aranha na
floresta/Encosta inclinada
Êxito
Chegam ao País dos
Quadlings
Reconhecimento
Glinda, a Bruxa do Sul
Desmascaramento
Transfiguração
Glinda manda os Macacos
Alados levarem o Espantalho, Lenhador de Lata e Leão Covarde de volta
Punição
Casamento/Prêmio
Dorothy volta para casa
Como
podemos ver, algumas etapas simplesmente não acontecem, em parte pela falta de
um verdadeiro antagonista que persiga os amigos até o final de sua jornada; no
filme, a antagonista é a Bruxa Malvada do Oeste. O livro parece seguir
fielmente a estrutura de Propp, inclusive na distribuição dos capítulos:
Função da Narrativa
O
Mágico de Oz (1900)
Afastamento
Chapter I. The Cyclone/Capítulo
1 – O ciclone
Proibição
Transgressão
Interrogatório/Reconhecimento
Informação/Entrega
Chapter II. The Council
with the Munchkins/Capítulo 2 – O encontro com os Munchkins
Ardil
Cumplicidade
Dano/Carência
Chapter II. The Council
with the Munchkins/Capítulo 2 – O encontro com os Munchkins
Mediação
Aceitação
Partida
1ª prova
Chapter III. How
Dorothy Saved the Scarecrow/Capítulo 3 – Como Dorothy salvou o Espantalho
Chapter IV. The Road
Through the Forest/Capítulo 4 – A estrada pela floresta
Chapter V. The Rescue
of the Tin Woodman/Capítulo 5 – O resgate do Lenhador de Lata
Chapter VI. The
Cowardly Lion/Capítulo 6 – O Leão Covarde
Reação
Chapter VII. The
Journey to the Great Oz/Capítulo 7 – A viagem em busca do Grande Oz
Chapter VIII. The
Deadly Poppy Field/Capítulo 8 – O campo das papoulas da morte
Chapter IX. The Queen
of the Field Mice/Capítulo 9 – A Rainha dos Rato sdo Campo
Recepção do auxiliar
mágico
Chapter X. The Guardian
of the Gate/Capítulo 10 – O Guarda dos Portões
Chapter XI. The
Wonderful City of Oz/Capítulo 11 – A maravilhosa Cidade das Esmeraldas de Oz
Deslocamento
Chapter XII. The Search
for the Wicked Witch/Capítulo 12 – Em busca da Bruxa Má
Combate (2ª prova)
Marca
Vitória
Chapter XIII. The
Rescue/Capítulo 13 – A salvação
Reparação do Dano
Retorno
Chapter XIV. The Winged
Monkeys/Capítulo 14 – Os Macacos Alados
Perseguição
Salvamento
Chegada
Chapter XV. The
Discovery of Oz, the Terrible/Capítulo 15 – O segredo de Oz o Terrível
Chapter XVI. The Magic
Art of the Great Humbug/Capítulo 16 – Os poderes mágicos do Grande Impostor
Chapter XVII. How the
Balloon Was Launched/Capítulo 17 – Como o Balão levantou voo
Impostor – impostura
Tarefa Difícil (3ª
prova)
Chapter XVIII. Away to
the South/Capítulo 18 – Rumo ao Sul
Chapter XIX. Attacked
by the Fighting Trees/Capítulo 19 – Atacados pelas árvores que lutam
Chapter XX. The Dainty
China Country/Capítulo 20 – O delicado País de Louça
Chapter XXI. The Lion
Becomes the King of Beasts/Capítulo 21 – O Leão se torna Rei dos Animais
Êxito
Chapter
XXII. The Country of the Quadlings/Capítulo 22 – O País dos Quadlings
Reconhecimento
Chapter XXIII. Glinda
The Good Witch Grants Dorothy's Wish /Capítulo 23 – A Bruxa Boa concede o
desejo de Dorothy
Desmascaramento
Transfiguração
Chapter XXIII. Glinda
The Good Witch Grants Dorothy's Wish/Capítulo 23 – A Bruxa Boa concede o
desejo de Dorothy
Punição
Casamento/Prêmio
Chapter XXIV. Home
Again/Capítulo 24 – De volta em casa
Analisando o papel
da personagem, Anatol ROSENFELD (2007, p. 45) nos explica que
(...) a grande obre de
arte literária (ficcional) é o lugar em que nos defrontamos com seres humanos
de contornos definidos e definitivos, em ampla medida transparentes, vivendo
situações exemplares de um modo exemplar (exemplar também no sentido negativo).
Como seres humanos encontram-se integrados num denso tecido de valores de ordem
cognoscitiva, religiosa, moral, político-social e tomam determinadas atitudes
em face desses valores. Muitas vezes debatem-se com a necessidade de decidir-se
em face da colisão de valores, passam por terríveis conflitos e enfrentam
situações-limite em que se revelam aspectos essenciais da vida humana: aspectos
trágicos, sublimes, demoníacos, grotescos ou luminosos. Estes aspectos profundos,
muitas vezes de ordem metafísica, incomunicáveis em toda a sua plenitude
através do conceito, revelam-se, como num momento de iluminação, na plena
concreção do ser humano individual. São momentos supremos, à sua maneira
perfeitos, que a vida empírica, no seu fluir cinzento e cotidiano, geralmente
não apresenta de um modo tão nítido e coerente, nem de forma tão transparente e
seletiva que possamos perceber as motivações mais íntimas, os conflitos e
crises mais recônditos na sua concatenação e no seu desenvolvimento
Antônio CÂNDIDO
(2007), por sua vez, nos lembra os três elementos centrais, inseparáveis em um
bom romance: (i) o enredo, (ii) a personagem, que constituem sua matéria, e
(iii) as “ideias”, significados e valores que animam a vida do romance, que
constitui o seu significado. Ora, o ser humano é, per se, enigmático e fragmentário: apenas conseguimos extrair
pequenos fragmentos de ser, “que nos são dados por uma conversa, um ato, uma
sequência de atos, uma afirmação, uma informação” (p. 56). Daí a importância da
personagem, que ganhou destaque sobre o enredo na revolução sofrida pelo
romance no século XVIII: passou-se “do enredo complicado com personagem
simples, para o enredo simples (coerente, uno) com personagem complicada” –
basta lembrarmo-nos de Ulysses, de
James Joyce, o ápice do romance moderno.
Ao
contrário da vida, em que estabelecemos nosso entendimento sobre as pessoas e
cuja interpretação pode variar com o tempo, o romance é uma unidade finita: o
escritor precisa conferir algo mais coeso, chamado de lógica da personagem,
dando-lhe
uma linha de coerência
fixada para sempre, delimitando a curva da sua existência e a natureza do seu
modo-de-ser. Daí ser ela relativamente mais lógica, mais fixa do que nós. E
isto não quer dizer que seja menos profunda; mas que a sua profundidade é um universo
cujos dados estão todos à mostra, forma pré-estabelecidos pelo seu criador, que
os selecionou e limitou em busca de lógica (CÂNDIDO, 2007, p. 59)
Esta
é a importância que confere FORSTER (1949) ao diferenciar, assim, “personagens
planas” (flat characters) e
“personagens esféricas” (round characters):
enquanto as primeiras são simples, construídas em torno de uma única ideia ou
qualidade, as esféricas possuem a capacidade de nos surpreender “de maneira
convincente” – “se nunca surpreende, é plana. Se não convence, é plana com
pretensão esférica. [A personagem esférica] traz em si a imprevisibilidade da
vida – traz a vida dentro das páginas de um livro” (p. 78)[1].
Em todo o caso, a construção de uma personagem é feita pelo escritor, que
projeta nela características suas ou por ele inventadas; é o caso de
personagens históricas, por exemplo. A retratar D. Pedro I, o escritor de
ficção, ainda que contemporâneo do monarca, irá reproduzi-lo em sua obra como
figura histórica e, ainda que tente ao máximo aproximá-lo da realidade, ainda
assim terá que colocar algo de seu, de sua imaginação, de forma que a
personagem tome forma e conteúdo. Ainda assim, a vida da personagem dependerá da “economia do livro”: “outras
personagens, ambiente, duração temporal, ideias” (CÂNDIDO, 2007, p. 74). Essa é
a beleza da literatura.
As principais
personagens da narrativa de O Mágico de
Oz são: Dorothy (protagonista), Totó, Tio Henry, Tia Em, Espantalho,
Lenhador de Lenha, Leão Covarde, Oz, Bruxa do Norte, Bruxa do Sul e Bruxa Malvada
do Oeste. Irei expô-las nesta ordem. Todas as personagens são, na tipologia de
FORSTER, planas.
Dorothy é uma menina do Kansas que vive com
seu Tio Henry e sua Tia Em em uma fazenda. Ao contrário deles, que são
cinzentos e tristes, a garota mantém a alegria de viver muito por causa do seu
fiel companheiro, o cãozinho Totó. Ele era um cachorrinho preto, com o pelo
longo e sedoso e olhinhos negros que reluziam satisfeitos dos dois lados de seu
focinho preto, miúdo e engraçado. Dorothy, propositalmente, não tem uma
descrição física minuciosa, apenas que usa um vestido de guingão, quadriculado
de branco e azul, com uma touca cor-de-rosa na cabeça.
Tio Henry nunca
ria e trabalhava duro durante todo o dia. Não tinha ideia do que era alegria;
era todo cinza, da lona barba às botas grosseiras que usava. Tinha uma
aparência solene e severa e quase nunca dizia nada, assim como Tia Em. Ela
tinha os olhos cinzas, as faces e lábios acinzentados e era magra e seca, e não
sorria mais por causa do sol e vento do Kansas.
When Dorothy, who was an
orphan, first came to her, Aunt Em had been so startled by the child's laughter
that she would scream and press her hand upon her heart whenever Dorothy's
merry voice reached her ears; and she still looked at the little girl with
wonder that she could find anything to laugh at. (BAUM, 2003, pp. 16-18)
O
Espantalho havia sido fabricado anteontem quando Dorothy o conheceu. Criado
para afugentar os corvos, “It was a lonely life to lead, for I had nothing to
think of, having been made such a little while before” (BAUM, 2003, p. 47). De
início, as aves acharam que ele era um Munchkin, então se afugentava, mas um
velho corvo veio e o examinou de perto, concluindo que ele era apenas um
espantalho: "`I wonder if that farmer thought to fool me in this clumsy
manner. Any crow of sense could see that you are only stuffed with straw.'” (idem).
Ele comeu então o milho e outras aves seguiram seu exemplo; por fim, o velho
corvo assim o reconfortou: “`If you only had brains in your head you would be
as good a man as any of them, and a better man than some of them. Brains are
the only things worth having in this world, no matter whether one is a crow or
a man.'” (BAUM, 2003, p. 48). Assim, o Espantalho fixou-se na ideia de
conseguir um cérebro e por isso juntou-se a Dorothy em sua jornada. Durante o
livro, ele dá mostras de grande inteligência, ao recolher nozes para que
Dorothy não passe fome ou sugerir que eles atravessassem um barranco nas costas
do Leão, entre outros episódios. No final da história, ele governa a Cidade das
Esmeraldas no lugar do mágico de Oz.
O
Lenhador de Lata não tem coração. No capítulo 5 ele conta sua história:
"I was born the son
of a woodman who chopped down trees in the forest and sold the wood for a
living. When I grew up, I too became a woodchopper, and after my father died I
took care of my old mother as long as she lived. Then I made up my mind that
instead of living alone I would marry, so that I might not become lonely.
"There was one of
the Munchkin girls who was so beautiful that I soon grew to love her with all
my heart. She, on her part, promised to marry me as soon as I could earn enough
money to build a better house for her; so I set to work harder than ever. But
the girl lived with an old woman who did not want her to marry anyone, for she
was so lazy she wished the girl to remain with her and do the cooking and the
housework. So the old woman went to the Wicked Witch of the East, and promised
her two sheep and a cow if she would prevent the marriage. Thereupon the Wicked
Witch enchanted my axe, and when I was chopping away at my best one day, for I
was anxious to get the new house and my wife as soon as possible, the axe
slipped all at once and cut off my left leg.
"This at first
seemed a great misfortune, for I knew a onelegged man could not do very well as
a wood-chopper. So I went to a tinsmith and had him make me a new leg out of
tin. The leg worked very well, once I was used to it. But my action angered the
Wicked Witch of the East, for she had promised the old woman I should not marry
the pretty Munchkin girl. When I began chopping again, my axe slipped and cut
off my right leg. Again I went to the tinsmith, and again he made me a leg out
of tin. After this the enchanted axe cut off my arms, one after the other; but,
nothing daunted, I had them replaced with tin ones. The Wicked Witch then made
the axe slip and cut off my head, and at first I thought that was the end of
me. But the tinsmith happened to come along, and he made me a new head out of
tin.
"I thought I had
beaten the Wicked Witch then, and I worked harder than ever; but I little knew
how cruel my enemy could be. She thought of a new way to kill my love for the
beautiful Munchkin maiden, and made my axe slip again, so that it cut right
through my body, splitting me into two halves. Once more the tinsmith came to
my help and made me a body of tin, fastening my tin arms and legs and head to
it, by means of joints, so that I could move around as well as ever. But, alas!
I had now no heart, so that I lost all my love for the Munchkin girl, and did
not care whether I married her or not. I suppose she is still living with the
old woman, waiting for me to come after her.
"My body shone so
brightly in the sun that I felt very proud of it and it did not matter now if
my axe slipped, for it could not cut me. There was only one danger—that my
joints would rust; but I kept an oil-can in my cottage and took care to oil
myself whenever I needed it. However, there came a day when I forgot to do
this, and, being caught in a rainstorm, before I thought of the danger my
joints had rusted, and I was left to stand in the woods until you came to help
me. It was a terrible thing to undergo, but during the year I stood there I had
time to think that the greatest loss I had known was the loss of my heart.
While I was in love I was the happiest man on earth; but no one can love who
has not a heart, and so I am resolved to ask Oz to give me one. If he does, I
will go back to the Munchkin maiden and marry her." (BAUM, 2003, pp. 57-59)
Ao
contrário do que ele mesmo pensa, o Lenhador de demonstra ter um grande coração
ao longo da narrativa, pois mais de uma vez ele se emociona e se enferruja por
causa do próprio choro. Ao final da narrativa, ele governa os Wikies através do
castelo da Bruxa Malvada do Oeste.
O
Leão Covarde, como o nome diz, não tinha coragem. Ele entra na narrativa de
forma diferente da dos outros dois companheiros de Dorothy: ele a ataca. Após
acertar o Espantalho e o Lenhador de Lata, ele via para cima de Totó e, antes
que consiga desferir um golpe, Dorothy lhe dá um tapa, ao que o Leão revela
apenas ter atacado o cachorrinho porque ele era um covarde. Contudo, ao longo
da história, ele se mostra corajoso e gradativamente vai obtendo a valentia de
que sente falta, como quando solta um rugido para o mpagico de Oz e Totó cai em
cima do bimbo, revelando a verdadeira identidade do impostor. No final, depois
de derrotar uma aranha que amedrontava os animais de uma floresta, o Leão se
torna o Rei dos Animais.
Oz, o Grande e
Terrível, aparenta, de início, ser um grande mágico vaidoso e ocupado,
aparecendo sob diferentes formas para cada um dos quatro amigos. Em realidade,
ele é um farsante, pois não passava de um balconista que foi parar em Oz por
acaso e, desde então, se esconde dos moradores da Cidade das Esmeraldas para
fingir ser um grande mágico. Natural de Omaha, Nebraska, ele volta para sua
terra natal em um balão confeccionado por ele e por Dorohty.
A Bruxa Boa do
Norte aparece para Dorothy no País dos Munchkies e lhe explica que, para que
consiga voltar para casa, ela deve seguir a estrada de tijolos amarelos até a
Cidade das Esmeraldas. Ela ocupa um papel central ao fornecer os Sapatos de
Prata da Bruxa Malvado do Leste que morrera e ao dar um beijo na testa da
menina, que lhe protegeu durante toda a sua jornada. A Bruxa Boa do Sul,
Glinda, explica que Dorothy apenas precisa bater so calcanhares dos Sapatos de
Prata três vezes e dizer a eles aonde quer ir, desempenhando assim o papel de
solucionadora do conflito da menina. Por fim, a Bruxa Malvada do Oeste tinha
medo de água e do escuro e tenta usar o Leão como cavalo. Ela tenta obter os
Sapatos da menina, mas isso a leva à derrota: a menina fica enfurecida com a
Bruxa e joga um Balde de água nela, que derrete e morre.
A
história é narrada em 3ª pessoa e o narrador é onisciente, ou seja, ele não
somente conhece a história como também o que se passa na cabeça das
personagens. Isso fica claro nesta passagem da obra, quando Dorothy chega ao castelo
da Bruxa Malvada do Oeste e é feita prisioneira:
The Wicked Witch was
both surprised and worried when she saw the mark on Dorothy's forehead, for she
knew well that neither the Winged Monkeys nor she, herself, dare hurt the girl
in any way. She looked down at Dorothy's feet, and seeing the Silver Shoes,
began to tremble with fear, for she knew what a powerful charm belonged to
them. At first the Witch was tempted to run away from Dorothy; but she happened
to look into the child's eyes and saw how simple the soul behind them was, and
that the little girl did not know of the wonderful power the Silver Shoes gave
her. So the Wicked Witch laughed to herself, and thought, "I can still
make her my slave, for she does not know how to use her power." (...)
Now the Wicked Witch had
a great longing to have for her own the Silver Shoes which the girl always
wore. Her bees and her crows and her wolves were lying in heaps and drying up,
and she had used up all the power of the Golden Cap; but if she could only get
hold of the Silver Shoes, they would give her more power than all the other
things she had lost. She watched Dorothy carefully, to see if she ever took off
her shoes, thinking she might steal them. But the child was so proud of her
pretty shoes that she never took them off except at night and when she took her
bath. The Witch was too much afraid of the dark to dare go in Dorothy's room at
night to take the shoes, and her dread of water was greater than her fear of
the dark, so she never came near when Dorothy was bathing. Indeed, the old
Witch never touched water, nor ever let water touch her in any way. (BAUM,
2003, pp. 130-134)
Na
narrativa, o tempo que predomina é o pretérito perfeito (por exemplo em lived,
was, reached, etc.), o presente (‘The road to the City of Emeralds is paved
with yellow bick’, said the Witch) e o presente com função de passado (o verbo
conjuga-se o presente do indicativo, mas em realidade retrata uma situação do
passado). Em termo de espaço, a história se passa no Kansas (mundo real,
capítulos 1 e 24) e na Terra de Oz (vários países, capítulos 2 a 23).
[1] “The test of a round
character is whether it is capable of surprising in a convincing way. If it
never surprises, it is flat. If it does not convince, it is a flat pretending
to be round. It has the incalculability of life about it—life within the pages
of a book. And by using it sometimes alone, more often in combination with the
other kind, the novelist achieves his task of acclimatization and harmonizes
the human race with the other aspects of his work”; para mais informações sobre
a construção das pesonagens, rcf. FORSTER, 1985, pp. 43-82.
3. The Wonderful
Wizard of Oz (1939), o filme
O filme The Wonderful Wizard of Oz foi produzido
pelo estúdio MGM (Metro Goldwyn Mayer) em 1939, contando com uma hora, quarenta
e um minutos e trinta e noves segundos de duração. Dirigido por Victor Fleming,
o filme é estrelado por Judy Garland (Dorothy), Frank Morgan (Mágico de
Oz/Professor Marvel/Condutor da Carruagem/Porteiro), Ray Bolger (Hunk/Espantalho),
Bert Lahr (Zeke/Leão Covarde), Jack Haley (Hickory/Lenhador de Lata), Billie
Burke (Glinda), Margaret Hamilton (Elrimra Gulch/Bruxa Malvada do Oeste/ Bruxa
Malvada do Leste), Charley Grapewin (Tio Henry) e Clara Blandick (Tia Em) e é
até os dias atuais considerado um marco na história do cinema, sendo indicado
em 1940 aos Oscar de Melhor filme, Melhor direção de arte, Melhor fotografia e
Melhores efeitos especiais e vencendo nas categorias de Melhor trilha sonora e
Melhor canção original (Over the Rainbow),
além da atriz Judy Garland ter recebido um Oscar Juvenil por “Melhor
Performance Juvenil” (também pela sua atuação em Babe in Arms) . O filme também foi indicado ao prêmio Palma de Ouro
do Festival de Cannes.
A
cena inicial do filma já dá conta do que esperar dele:
For nearly forty years
this story has given faithful service to the Young in Heart; and Time has been
powerless top put its kindly philosophy out of fashion.
To those of you who have
been faithful to it in return
O
filme começa com Dorothy fugindo da Srta. Gulch, pois totó, seu cãozinho,
invadiu a fazenda dela perseguindo um gato. A menina se queixa então com os
três trabalhadores da fazendo de seu tio: Hunk, Hickory e Zeke. Ao tentar falar
com seu tio Henry e sua tia Em, Dorothy não obtém sucesso e enfrente a Srta. Gulch,
que quer levar seu cãozinho ao xerife pois ele a mordeu mais cedo. A menina se
opõe a isto, mas no final cede e deixa que a malvada senhorita leve Totó.
No
caminho par ao xerife, Totó escapa do cesto na bicicleta da Srta. Gulch e volta
para junto de Dorothy. Com medo de perder seu companheiro, a menina decide
fugir e na sua fuga encontra o Professor Marvel, que se diz um mágico. Marvel
então finge revelar a Dorothy as razões porque ela está fugindo, mas na verdade
ele apenas e aproveita da ingenuidade da criança – ele é um falsário, cuja bola
de cristal não passava de uma esfera de vidro.
Instigada
pelo falso mágico, Dorothy resolve voltar para sua casa, mas quando chega lá
não encontra ninguém – seus tios e os trabalhadores já estavam escondidos no
abrigo, para se proteger do ciclone que chegava. A menina vai para seu quarto
e, com a tempestade, a janela do cômodo quebra e ela cai desacordada na cama.
A partir daí
começa a aventura. A casa rodopia pelo ar e quando Dorothy acorda, fica
surpresa com o fato da casa estar no olho do ciclone e vê passar pela janela as
figuras que conhecia, como Tia Em e a Srta. Gulch, que se transforma em uma
Bruxa – sua bicicleta se transforma em uma vassoura.
A casa cai e
Dorothy se vê em um mundo colorido, o País dos Munchkins. Glinda, a Bruxa do Norte, vem ao encontro
dela e explica que sua casa havia caído em cima da Bruxa Malvada do Leste, ao
que os Munchkins se alegram e cantam e dançam.
No meio do regozijo, a Bruxa Má do Oeste chega e acaba com as
comemorações, dizendo à menina que fará de tudo para conseguir os Sapatos de
Rubi que ela calçava e que pertenciam à Bruxa que morreu. Quando a Bruxa do
Oeste se vai, Glinda explica à Dorothy a existência do Grande Mágico de Oz e da
Cidade das Esmeraldas, dizendo que a menina deve seguir a estrada de tijolos
amarelos, que a levará ao encontro do grande Mágico.
No caminho,
Dorothy encontra um Espantalho sem cérebro, um Lenhador de Lata sem coração e
um Leão sem coragem que se juntam a ela em sua empreitada. Há três episódios
importantes antes de chegarem à Cidade das Esmeraldas: árvores falantes, que
jogam maçãs em Dorothy e no Espantalho; o aparecimento da Bruxa Malvada do
Oeste, que diz que faria um colchão com o Espantalho e uma colmeia com o Lenhador
de Lata, ao que aproveita e joga fogo no primeiro para intimidá-lo; e a
travessia pelo campo de papoulas, no qual Dorothy e o Leão adormecem, mas com a
ajuda da Bruxa do Norte, que faz nevar, eles retomam caminho e chegam à Cidade.
Uma vez na Cidade, eles se lavam e
limpam antes de falarem com o Grande Oz. A Bruxa Malvada do Oeste aparece em
sua vassoura e escreve no céu “renda-se Dorothy”, ao que os quatro amigos
correm para falar com o mágico. Na Sala do Trono, Oz, o Grande e Temível (?),
aparece sob a forma de uma enorme cabeça verde e, após ouvir a demanda de
todos, ele diz que está disposto a realizar seus desejos se eles cumprirem uma
pequena tarefa: trazer a vassoura da Bruxa do Oeste.
Os quatro amigos
seguem em direção ao castelo da Bruxa e na floresta são surpreendidos pelos
Macacos Alados, que afugentam o Lenhador de Lata e o Leão, destroçam o
Espantalho e sequestram Dorothy e Totó. A Bruxa quer os Sapatos de Rubi e
ameaça jogar Totó no rio. Ao ouvi isso, a menina cede e aceita dar os Sapatos à
feiticeira, mas esta não consegue tirá-los porque, segundo ela, eles não sairão
enquanto Dorothy estiver viva. Neste momento, Totó consegue escapar e foge do
castelo da Bruxa.
Irritada, a Bruxa
mostra uma ampulheta para a menina, dizendo que era o quanto restava de vida
dela. Nesse meio tempo, Totó desce o desfiladeiro do Castelo e encontra os três
amigos na floresta. Eles então escalam a montanha rumo ao castelo da Bruxa,
mas, ao tentarem entrar nele, são surpreendidos e brigam com os guardas da
Bruxa, de quem pegam as roupas e se vestem como eles. Caracterizados como
guardas, os três podem agora adentrar o castelo sem serem percebidos e o fazem.
Uma vez lá dentro,
são guiados por Totó, que os leva até o cômodo em que Dorothy está trancada. O
Lenhador abra a porta com seu machado e tentam escapar do castelo, mas são
encurralados pela Bruxa. O Espantalho então usa o machado do Lenhador para
cortar uma corda que sustentava um lustre, que cai em cima dos guardas e eles
conseguem escapar. Encurralados novamente no topo da muralha, a bruxa ateia
fogo ao Espantalho e, tentando apagá-lo, Dorothy joga água nele, mas o líquido
pega também na Bruxa que, hidrófoba, derrete.
Os guardas ficam
felizes com a morte da Bruxa Malvada do Oeste. Os quatro retornam para falar
com Oz, levando a vassoura do Bruxa como prova. Ele aparece de novo como uma
Cabeça imensa e diz para eles voltarem amanhã, apesar de terem cumprido a sua
parte do combinado. Totó entre em um biombo e puxa sua cortina, revelando um
velhinho que na verdade era o mágico de Oz. Ele se revela um farsante – era um
balconista que sem querer foi parar naquela cidade e desde então nunca se
revelou aos habitantes.
Contudo, nossos
amigos conseguem o que queriam, pelo menos três deles: Oz dá um diploma ao
Espantalho de PhP, Doutor em Pensamentologia (em inglês é PhT, Doctor in Thinkology,
um trocadilho com PhD), uma medalha ao
Leão por honra ao mérito, coragem extraordinária, notável bravura contra bruxas
malvadas, tornando-se membro da Legião dos Corajosos e ao Lenhador de Lata, ele
dá uma condecoração em homenagem à sua bondade.
O mágico, porém,
não tem a solução imediata para o problema de Dorothy. Oz diz que ele mesmo
terá que levá-la de volta ao Kansas em seu balão. Na partida dos dois, o mágico
diz que o Espantalho irá governar a Cidade das Esmeraldas com a ajuda do Lenhador
de Lata e do Leão. Nesse momento, Totó persegue um gato que estava na plateia e
Dorothy vai atrás dele, mas as cordas que prendiam o balão se soltam e Oz parte
sem a menina – ele diz que não pode voltar porque não sabe como o balão
funciona.
A Bruxa do Norte aparece
e fala que Dorothy deveria bater no calcanhar três vezes, dizendo que ela
sempre teve o poder de voltar para casa, Mans não havia dito porque ela não
teria acreditado na Bruxa Boa, pois ela tinha que aprender sozinha. Ela se
despede dos amigos e bate o calcanhar três vezes, dizendo “there is no place like home”.
Ela acorda no
Kansas cinzento novamente com Tia Em e Tio Henry, ao que aparece o mágico
Marvel. Tio Henry diz que ela bateu a cabeça e até pensou que ela os deixaria.
Por fim, todos estão reunidos em seu quarto, inclusive os trabalhadores Hunk,
Hickory e Zeke.
Nesta
seção, busco responder à questão que coloquei na introdução: o que os filmes de
Star Wars e O Mágico de Oz têm em comum? Utilizarei as ideis contidas em The Hero with a Thousand Faces (1949),
de Joseph Campbell e The Writer's Journey
(1998), de Christopher Vogler. As ideias estão expostas nos doze pontos abaixo (VOGLER,
2006, p. 46) e também podem ser encontradas no vídeo abaixo:
1. Os heróis são apresentados no MUNDO COMUM, onde
2. recebem um CHAMADO À AVENTURA.
3. Primeiro, ficam RELUTANTES OU RECUSAM O CHAMADO,
mas
4. num Encontro com o MENTOR são encorajados a fazer a
5. TRAVESSIA DO PRIMEIRO LIMIAR e entrar no Mundo
Especial, onde
6. encontram TESTES, ALIADOS E INIMIGOS.
7. Na APROXIMAÇÃO DA CAVERNA OCULTA, cruzam um Segundo
Limiar,
8. onde enfrentam a PROVAÇÃO.
9. Ganham sua RECOMPENSA e
10. são perseguidos no CAMINHO DE VOLTA ao Mundo
Comum.
11. Cruzam então o Terceiro Limiar, experimentam uma
RESSURREIÇÃO e são transformados pela experiência.
12. Chega então o momento do RETORNO COM O ELIXIR, a
bênção ou o tesouro que beneficia o Mundo Comum.
Podemos ver esta
estrutura no seguinte esquema (VOGLER, 2006, p. 36):
É impossível olhar para esses passos
e não nos lembrar de filmes clássicos do cinema, pelo menos de aventura ou
ficção científic : O conde de Monte Cristo, Um tira da pesada parte, Rambo:
Programado para matar, A força do destino, Rocky: Um lutador, Casablanca,
Indiana Jones e o Templo da Perdição etc. O próprio VOGLER (2006, p. 105) trás
como exemplo O Mágico de Oz em seu
livro, ao comentar as etapas:
Eu me refiro muito a O Mágico de Oz por ser um filme
clássico, que a maioria das pessoas viu e conhece, e porque apresenta uma
Jornada de Herói bem típica, com estágios claramente delineados. Também traz um
grau surpreendente de profundidade psicológica, podendo ser lido não apenas
como um conto de fadas de uma menininha tentando voltar para casa, mas também
como metáfora de uma personalidade tentando se completar.
A seguir, irei
incluir os comentários do próprio autor sobre o filme, em cada umas das etapas
– retirei cada um dos trechos citados diretamente do livro de VOGLER.
The
Writer's Journey (1998)
The
Wonderful Wizard of Oz (1900)
1.O
mundo comum
Quando a história começa, a heroína
Dorothy enfrenta um problema exterior nítido. Seu cachorrinho, Totó, cavou e
estragou o canteiro da srta. Gulch e por isso Dorothy está encrencada. Ela
tenta conseguir o apoio do tio e da tia, mas eles estão muito ocupados,
preparando-se para uma tempestade que se aproxima. Assim como os heróis dos
mitos e das lendas que a precederam, Dorothy está inquieta, sente-se
marginal, e não sabe o que fazer. Dorothy também tem um problema interno
nítido. Não se ajusta mais, já não se sente "em casa". Como os
heróis incompletos dos contos de fadas, falta à menina uma peça importante em
sua vida — os pais morreram. Ela ainda não sabe, mas está a ponto de partir
em busca de algo que a complete. Não por meio do casamento e formação de uma
nova família, mas pelo encontro com uma série de forças mágicas, que, por sua
vez, representam partes de uma personalidade completa e perfeita. Como
prenuncio desses encontros, Dorothy vive uma miniatura da aventura no Mundo
Especial. Chateada da vida, a menina caminha, tentando se equilibrar, em cima
da cerca muito estreita do chiqueiro, e cai lá dentro. Três empregados da
fazenda, com carinho, correm para ajudá-la e salvá-la do perigo, numa
previsão dos papéis que os mesmos atores irão desempenhar no Mundo Especial.
A cena informa, na linguagem simbólica, que Dorothy tem andado numa corda
bamba entre os lados conflitantes de sua personalidade, e por isso, mais cedo
ou mais tarde, precisará de toda a ajuda possível, ajuda que terá de brotar
de todas as partes de seu ser, para que ela possa sobreviver a uma queda
inevitável no tumulto do conflito (pp. 105-106)
2.Chamado
á aventura
Os vagos sentimentos de inquietação de
Dorothy se cristalizam quando a srta. Gulch chega e, irritada, carrega Totó.
Há um conflito entre dois lados, que lutam pelo controle da alma de Dorothy.
Uma energia de Sombra repressiva tenta prender seu lado intuitivo, de
natureza boa. Mas Totó, instintivo, escapa. Dorothy segue seus instintos, que
estão lhe enviando um Chamado à Aventura, e foge de casa. Sente-se desprezada
pela falta de carinho de tia Em, sua mãe de criação, que ralhou com ela.
Parte em resposta ao Chamado, sob um céu onde se acumulam as nuvens de
mudança (pp. 113-114)
3.Recusa
do chamado
Dorothy foge de casa e vai até a carroça
do professor Marvel, um Velho Sábio, cuja função nessa encarnação é
bloqueá-la no limiar de uma jornada perigosa. Nesse ponto, Dorothy é uma
heroína voluntária, e cabe ao professor mostrar à platéia o perigo da
estrada. Com um pouco de magia de curandeiro, ele a convence a voltar para
casa, a recusar o Chamado —por enquanto. Na verdade, o professor está é
transmitindo a ela um Chamado superior, o de voltar para casa e fazer as
pazes com sua energia feminina conflitada, a ligar-se novamente ao amor de tia
Em e a lidar com seus próprios sentimentos, em vez de fugir deles. Embora
Dorothy, nesse momento, ceda e volte, forças poderosas já foram desencadeadas
em sua vida, Ela descobre que o poder assustador do furacão, um símbolo dos
sentimentos que ela agitou, expulsou seus parentes e aliados para o
subterrâneo e que estão todos fora do alcance. Ninguém consegue ouvi-la. Está
sozinha, a não ser por Totó, sua intuição. Como muitos outros heróis, Dorothy
descobre que, uma vez iniciada a jornada, não há como voltar ao que era
antes. Em última análise, a Recusa é inútil. Já queimou pontes atrás de si e
deve agüentar as conseqüências de ter dado o primeiro passo na estrada dos
heróis. Dorothy se refugia numa casa vazia, que, nos sonhos, freqüentemente
simboliza uma velha estrutura da personalidade. Mas as forças da mudança, uma
vez desencadeadas e postas em movimento, vêm varrendo tudo e nenhuma
estrutura pode protegê-la contra seu poder terrível (pp. 120-121)
4.Encontro
com o mentor
Dorothy, como muitos heróis, encontra
uma série de Mentores, de várias formas. Aprende alguma coisa com quase todo
mundo que encontra, e todos esses personagens com quem aprende, de certo
modo, são Mentores. O professor Marvel é o Mentor que a lembra de que é amada
e a envia numa busca de "casa", um termo que significa muito mais
do que uma casinha de fazenda no Kansas. Dorothy tem que aprender a se sentir
em casa em sua própria alma, e voltar para enfrentar seus problemas é um
passo nesse sentido. Mas o furacão a carrega para Oz, onde Dorothy encontra
Glinda, a bruxa boa, um novo mentor para uma nova terra. Glinda lhe explica
as estranhas leis de Oz, lhe dá o presente mágico dos sapatinhos de rubi e
aponta-lhe o caminho pela Estrada dos Tijolos Amarelos, a estrada dourada dos
heróis. Dá a Dorothy um modelo feminino positivo, para contrabalançar a
negatividade da Bruxa Malvada. As três figuras mágicas que Dorothy encontra
pelo caminho — um homem de palha, um homem de lata e um leão falante — são
aliados e mentores que lhe ensinam lições sobre a mente, o coração e a
coragem. São diferentes modelos da energia masculina que ela deve incorporar
para construir sua personalidade. O próprio Mágico é um Mentor,
transmitindo-lhe um novo Chamado à Aventura, a missão impossível de ir buscar
a vassoura da Bruxa. Desafia Dorothy a enfrentar seu maior medo — a energia
feminina hostil da Bruxa. O cachorrinho Totó também é um Mentor, à sua moda.
Agindo inteiramente pelo instinto, ele é a intuição dela, guiando-a para as
profundezas da aventura e, depois, de volta (pp. 129-130)
5.Travessia
do primeiro limiar
Uma força natural tremenda se ergue para
levar Dorothy afazer a Travessia do Primeiro Limiar. Ela está tentando chegar
em casa, mas um furacão a desvia para um Mundo Especial, onde ela vai
aprender o que realmente significa estar "em casa". O sobrenome de
Dorothy, Gale (em português, "ventania", "furacão"), já é
um jogo de palavras que liga a personagem à idéia de tempestade. Em linguagem
simbólica, são as próprias emoções de Dorothy Gale que, desencadeadas,
geraram o tufão. Sua velha idéia de casa, a construção em si, é arrancada
pelo vento e carregada para uma terra distante, onde pode ser construída uma
nova estrutura de personalidade. Enquanto atravessa a zona de transição,
Dorothy vê cenas familiares, só que em circunstâncias fora do comum. Vacas
voam pelo ar, homens remam um bote em meio à tempestade, a srta. Gulch, em
sua bicicleta, transforma-se na Bruxa Malvada. Não há mais nada com que
Dorothy possa contar agora, a não ser Totó — seus instintos. A casa despenca
no chão, com um estrondo. Dorothy emerge, para encontrar um mundo
surpreendentemente diferente daquele de Kansas. O que ela tem diante dos
olhos, agora, é um mundo povoado por Homenzinhos e Mulherezinhas de contos de
fadas. Um Mentor aparece magicamente: é Glinda, que flutua para dentro da
cena em uma bolha transparente. Ela começa a explicar a Dorothy os costumes
estranhos da nova terra, e assinala que a aterrissagem da casa de Dorothy
esmagou e matou uma bruxa malvada. A velha personalidade de Dorothy foi
abalada pelo desenraizamento de sua antiga noção de casa. Glinda entrega a
Dorothy os costumeiros presentes de Mentor: os sapatinhos de rubi e as
instruções que fornecem uma nova direção a sua busca. Se quiser voltar para
casa, Dorothy tem que, primeiro, encontrar o Mágico, isto é, entrar em
contato com seu próprio Eu superior. Glinda lhe dá um caminho específico, a
Estrada dos Tijolos Amarelos, e manda que ela cruze um novo limiar, sabendo
que terá que fazer amigos, enfrentar inimigos e ser posta à prova, antes que
consiga alcançar sua meta definitiva (pp. 135-136)
6.Testes,
aliados e inimigos
Ê claro que, nesse estágio da jornada,
nem todos os heróis vão a bares. Dorothy encontra seus Testes, Aliados e
Inimigos na Estrada dos Tijolos Amarelos. Tanto quanto Psique ou os heróis de
muitos contos de fadas, a heroína de O Mágico de Oz é bastante inteligente
para saber que os pedidos de socorro na estrada devem ser atendidos. Consegue
a lealdade do Espantalho, quando o ajuda a se soltar do poste onde estava
atado, e o ensina a andar. Enquanto isso, fica sabendo que o Inimigo, a Bruxa
Malvada, a segue em todos os momentos, só esperando a hora de atacar. A Bruxa
influencia umas macieiras rabugentas para que se tornem Inimigas de Dorothy e
do Espantalho. É o momento em que o Espantalho comprova que é digno de fazer
parte da equipe, enganando as árvores, provocando-as para que joguem maçãs,
que ele e Dorothy apanham para comer. Dorothy ganha a afeição de outro
Aliado, o Homem de Lata, lubrificando suas juntas e ouvindo com solidariedade
a sua triste história de não ter coração. A Bruxa aparece de novo, mostrando
sua inimizade ao lançar uma bola de fogo contra Dorothy e seus Aliados. Para
proteger Totó, Dorothy enfrenta o Leão Medroso, um Inimigo em potencial, ou
Guardião de Limiar, mas acaba fazendo dele um Aliado. As linhas de batalha
estão claramente delineadas. Dorothy aprendeu as regras do Mundo Especial e
passou por muitos Testes. Protegida pelos Aliados e atenta contra Inimigos
declarados, a menina está pronta para se aproximar da fonte central do poder
na terra de Oz (p. 144)
7.Aproximação
da caverna oculta
Em O Mágico de Oz, é quando Dorothy é
levada para o castelo funesto da Bruxa Malvada e seus companheiros conseguem
entrar para salvá-la (p. 42); para mais informações, cf. VOGLER, 2006, pp.
148-156.
8.A
provação suprema
Dorothy e os amigos, encurralados pela
Bruxa Malvada e por seu exército de Guardiões de Limiar, agora enfrentam a
Provação Suprema. A Bruxa está zangada com eles, porque penetraram em sua
Caverna Oculta e roubaram seu maior tesouro, os sapatinhos de rubi. Abate-se
sobre os quatro e ameaça matá-los um a um, deixando Dorothy para o fim. A
ameaça de morte deixa bem claro o que está em jogo. A platéia sabe que ali se
dará uma batalha entre as forças da vida e as forças da morte. A Bruxa começa
pelo Espantalho. Acende a vassoura e a usa como uma tocha para incendiá-lo.
As palhas começam a queimar e parece que tudo está perdido. Todas as crianças
na platéia acreditam que o Espantalho está liquidado e sentem com ele o
horror da morte. Dorothy age pelo instinto e faz a única coisa em que é capaz
de pensar para salvar o amigo. Agarra um balde d'água e o esvazia sobre o
Espantalho. Apaga o fogo, mas também molha a Bruxa. Dorothy não tinha a
intenção de matá-la, nem sequer sabia que a água faria a Bruxa Malvada
derreter, mas é isso o que acontece, e Dorothy a mata. A morte estava no
aposento, e Dorothy simplesmente a desviou para outra vítima. Mas a Bruxa não
faz apenas "puf" e desaparece. Sua morte é adiada, agonizante e
patética. "Ai, minha linda maldade! Que mundo, que mundo!" Quando
finalmente se acaba, a gente já está com pena da Bruxa Malvada e sentindo um
verdadeiro gosto de morte (pp. 174-175)
9.Recompensa
Logo depois da Provação, em O Mágico de Oz,
o que ocorre é um ato de Apanhar. Em vez da espada, é a vassoura queimada da
Bruxa Malvada. Para tomar posse dela, Dorothy, menina muito bem-educada, não
a agarra simplesmente, mas, com gentileza, pede aos terríveis guardas que lhe
entreguem a vassoura. Os guardas, agora de joelhos diante dela, tentam
mostrar lealdade e submissão. Dorothy teria boas razões para temer que os
guardas se voltassem contra ela após a morte da Bruxa. Mas, na verdade, eles
se mostram contentes porque agora estão livres de uma escravidão horrível.
Outra recompensa de sobreviver à morte: os Guardiões de Limiar podem passar
completamente para o lado do herói. Os guardas entregam a Dorothy a vassoura
com a maior boa vontade. Dorothy e os companheiros voltam rapidamente à sala
do trono do Mágico, onde ela deposita a vassoura diante da feroz cabeça
flutuante. Cumpriu a sua parte da barganha com o Mágico e completou a tarefa
que parecia impossível. Agora ela e os amigos pedem a Recompensa de heróis.
Mas, para sua surpresa, o Mágico reluta em pagar. Fica furioso e começa a
discutir. Parece uma velha estrutura de personalidade, ou um pai que sabe que
tem que ceder a um filho que está amadurecendo, mas se recusa a entregar os
pontos, propondo uma última briga. É então que o cachorrinho Totó cumpre seu
propósito na história. Sua curiosidade e intuição animal é que puseram
Dorothy nessa encrenca toda, lá no começo, quando ele cavou o canteiro de
flores da srta. Gulch. Agora, curiosidade e intuição serão seu instrumento de
salvação. Xe-retando atrás do trono, Totó descobre um velhinho insignificante
atrás de uma cortina. Deste esconderijo, o velho controla toda a monstruosa
ilusão de Oz, o grande e poderoso. Esse homem — e não a imensa cabeça
tonitruante — é que é o verdadeiro Mágico de Oz. Trata-se de um típico
momento de percepção pós-prova-ção ou de insight. Os heróis enxergam, pelos
olhos do intuitivo e curioso Totó, que, atrás da ilusão da organização mais
poderosa de quantas existem, ali está apenas um ser humano, com emoções que
estão ao alcance de qualquer um. (Essa cena sempre me pareceu uma metáfora
para Hollywood, que tenta ser imponente e assustadora, mas que é feita de
pessoas comuns, com seus medos e defeitos.) De início, o Mágico afirma não
poder ajudá-los, mas, com um pouco de encorajamento, ele acaba dando os
Elixires para os ajudantes de Dorothy: um diploma para o Espantalho, uma
medalha de bravura para o Leão, um coração de corda para o Homem de Lata. A
cena tem um certo tom de sátira. Parece dizer: os Elixires são placebos, símbolos
sem sentido que os homens trocam entre si. Muitas pessoas ostentam medalhas,
certificados e graduações e, entretanto, nada fizeram para merecê-los. Os que
nunca sobreviveram à morte podem passar o dia inteiro tomando o Elixir que,
mesmo assim, isto em nada vai ajudá-los. O verdadeiro Elixir, que tudo cura,
é a conquista de uma mudança interior, mas a cena em Oz admite que é
importante ter também o reconhecimento externo. Assim, como um pai postiço de
todos eles, o Mágico de Oz dá aos heróis a bênção final de uma aprovação
paterna, uma Recompensa que pouca gente ganha. Coração, cérebro e coragem
estão dentro deles mesmos — e sempre estiveram —, mas os objetos físicos
servem como lembretes. Nesse momento, o Mágico vira-se para Dorothy e diz,
tristemente, que não há nada que possa fazer por ela. Ele próprio chegara a
Oz num balão que o vento soprou, a partir de um parque de diversões em
Nebraska, e não tem a menor idéia de como conseguirá, ele mesmo, voltar para
casa. E tem razão. Somente a própria Dorothy pode garantir a si mesma a
autoaceitação, que significa "voltar para casa", ou seja, estar
feliz dentro de si mesma, onde quer que esteja. Mas o Mágico concorda em
tentar alguma coisa e ordena aos cidadãos de Oz que construam um grande balão
cheio de ar quente. Os heróis conseguiram tudo, menos o fugidio prêmio de
voltar para casa, que deve ser procurado no terceiro ato (pp. 184-185)
10.Caminho
de volta
O Mágico preparou um balão de ar quente,
com o qual espera levar Dorothy no Caminho de Volta para o Kansas. O povo de
Oz reúne-se para se despedir deles, com uma banda de música. No entanto,
nunca é tão fácil assim. Totó, vendo um gato no colo de uma mulher da
multidão, sai correndo, e Dorothy vai atrás dele. Na confusão, o balão sobe
com o Mágico a bordo e Dorothy fica para trás, aparentemente presa em
definitivo no Mundo Especial. Muitos heróis tentaram voltar empregando meios
com os quais estão familiarizados — velhas muletas e outros tipos de
dependência. Mas descobrem que esses caminhos são tão artificiais e difíceis
de controlar quanto o balão do Mágico. Dorothy, guiada por seu instinto (o
cachorro) sabe, no fundo, que esse não é seu caminho. No entanto, está pronta
para tomar o Caminho de Volta e continua procurando a estrada certa (p. 193)
11.Ressurreição
O Mágico de Oz não é tão fortemente
visual quanto Tudo por uma esmeralda, ao mostrar como o herói mudou. O
renascimento e o aprendizado expressam-se em palavras. A Ressurreição, para
Dorothy, está na recuperação da aparente morte de suas esperanças, naquele
momento em que o Mágico, por mero acidente, vai-se embora com o balão.
Justamente quando parece que Dorothy nunca conseguirá seu objetivo de voltar
para casa, há outra aparição da Bruxa Boa, a representara anima positiva que
nos conecta com a casa e a família. Diz a Dorothy que ela possuía, o tempo
todo, o poder de voltar para casa, e que só não tinha dito isso antes à
menina porque "não teria mesmo acreditado nela, tinha que aprender
sozinha". O Homem de Lata pergunta, então, de modo direto: "E o que
foi que você aprendeu, Dorothy?" A menina responde que aprendeu a
procurar o "desejo de seu coração" em seu "próprio
quintal". Como Joan Wilder, Dorothy descobriu que a felicidade e o
sentido de integração estão dentro dela mesma, mas essa expressão verbal de
mudança é menos eficaz do que as mudanças visuais e de comportamento que se
podem ver na tela, como ocorre na cena da Ressurreição, em Tudo por uma
esmeralda. Apesar disso, é certo que Dorothy aprendeu alguma coisa, e agora
pode dar o passo na direção do Limiar final (p. 209)
12.Retorno
com o Elixir
O Retorno de Dorothy começa quando ela
se despede dos aliados e agradece os Elixires de amor, coragem e sensatez que
acaba de ganhar deles. Depois, batendo os calcanhares e cantando "Não há
lugar melhor que o nosso lar", ela deseja estar de volta ao Kansas, onde
tudo começou. Em casa, no Mundo Comum, de volta ao preto-e-branco, Dorothy
acorda na cama, com uma compressa na cabeça. Este Retorno é ambíguo: será que
a viagem a Oz foi "real" ou apenas o sonho de uma menina que levou
uma pancada na cabeça? Em termos da história, entretanto, não importa: para
Dorothy, foi uma Jornada real. Ela reconhece as pessoas em torno como sendo
os personagens de Oz. Mas mudaram as percepções que a menina agora tem dessas
pessoas, devido à experiência que ela acaba de adquirir no Mundo Especial.
Dorothy lembra que parte foi horrível, que parte foi bonita, mas se concentra
no que aprendeu: não há lugar melhor que o nosso lar. A declaração de
Dorothy, de que nunca mais vai sair de casa, não deve ser aceita
literalmente. Não está se referindo a esta casinha de madeira no Kansas, mas
à sua própria alma. Ela agora é uma pessoa plenamente integrada, de posse de
suas melhores qualidades, tem controle das piores, e está em contato com as
formas positivas de energia masculina e feminina dentro dela. Incorporou
todas as lições que aprendeu, por ter estado na estrada. Finalmente, está
feliz em sua própria pele, e vai se sentir em casa, onde quer que esteja. O
Elixir que Dorothy traz de volta é essa nova idéia de estar em casa, esse
novo conceito de seu próprio "eu" (pp. 223-224)
Como
em qualquer obra cinematográfica, a adaptação do livro deve ser pensada de modo
a ser fiel à obra original, mas com as modificações que somente a reprodução em
uma tela são capazes de fazer. Pensando nisso, podemos agora analisar de que
forma se deu esta adaptação; utilizo as iliustrações da edição original de
1900, feitas por William Wallace Denslow e as cenas captadas do filme
reproduzido na internet. A trilha sonora dele pode ser ser encontrada aqui:
No
início do filme, o diretor Victor Fleming tem duas ideias interessantes: o
Kansas é representado em cinza, assim como no livro. No livro, isso representa
um certo tédio e monotonia da paisagem, bem como a dureza da vida no local:
Dorothy lived in the
midst of the great Kansas prairies, with Uncle Henry, who was a farmer, and
Aunt Em, who was the farmer’s wife. (...)
When Dorothy stood in
the doorway and looked around, she could see nothing but the grat grey prairie on every side. Not a tree
nor a house broke the broad sweep of flat country that reached to the edge of
the sky in all directions. The sun had baked the ploughed land into a grey mass, with little cracks running
through it. Even the grass was not green, for the sun had burned the tops of
the long blades until they were the same grey
colour to be seen everywhere. Once the house had been painted, but the sun
blistered the paint and the rains washed it away, and now the house was a dull
and grey as everything else.
When Aunt Em came there
to live she was a young, pretty wife. The sun and wind had changed her, too.
They had taken the sparkle from her eyes and left them a sober grey; they had taken the red from her
cheeks and lips, and they were grey
also. She was thin and gaunt, and never smiled now. (...)
Uncle Henry never
laughed. He worked hard from morning till night and did not know what joy was.
He was grey also, from his long beard
to his rough boots, and he looked stern and solemn, and rarely spoke.
It was Toto that made
Dorothy laugh, and saved her from growing as grey as her other surroundings. Toto was not grey; he was a little black dog, with long silky hair and small
black eyes that twinkled merrily on either side of his funny, wee nose. Toto
played all day long, and Dorothy played with him, and loved him dearly.
Today, however, they
werenot playing. Uncle Henry sat upon the doorstep and looked anxiously at the
sky, which was even greyer than
usual. (BAUM, 2003, pp. 15-18 grifos nossos)
No filme, isso é representado pela
cor cinza, mas não parece haver tédio:
A outra ideia do
Diretor foi remeter as personagens de Oz às personagens da “vida real”. No
começo do filme, vemos três trabalhadores: Hunk, Hickory e Zeke. Hunk diz que Dorothy deve usar o cérebro;
Zeke fica assustado ao resgatar Dorothy do chiqueiro no qual ela caíra e
Hickory estava usando uma “geringonça”, segundo a Tia Em. Em Oz, percebemos que
estas cenas foram, na verdade, introduzidas para que o expectador entenda o
paralelismo: Hunk representa o Espantalho, Hickory o Lenhador de Lata e Zeke o
Leão. Isso também pode ser percebido nesta fala do filme:
Também encontramos
este paralelismo entre antes e depois da Terra de Oz no caso do Professor
Marvel, interpretado por Frank Morgan, que se mostra um vigarista também no
papel do Grande Oz:
Na cena em que
Dorothy acorda e sua casa está rodopiando no meio do olho do furacão, ela vê
figuras conhecidas de sua terra natal passando pela Janela: animais, os
trabalhadores, Tia Em e inclusive a Srta. Gulch (que se transforma na Bruxa Má
do Oeste, cuja bicicleta é transformada em vassoura). Esta cena pode ser
considerada de transição, na qual a aventura começa – no livro, sito vem
representado por uma frase: “A strange thing then happened” (BAUM, 1995, p. 13)
Para mostrar como
os Munchkins se alegram, há uma cena em que eles cantam e dançam – essas cenas
em que as personagens cantam, por óbvio, não estão no livro.
A reprodução do
encontro com o Espantalho sem cérebro e o Lenhador de Lata sem coração também é
fiel ao livro:
She bade her friends
good-bye, and again started along the road of yellow brick. When she had gone
several miles she thought she would stop to rest, and so climbed to the top of
the fence beside the road and sat down. There was a great cornfield beyond the
fence, and not far away she saw a Scarecrow, placed high on a pole to keep the
birds from the ripe corn. (BAUM, 2003, p. 37)
Just then another groan reached their ears, and the sound seemed to come from behind them. They turned and walked through the forest a few steps, when Dorothy discovered something shining in a ray of sunshine that fell between the trees. She ran to the place and then stopped short, with a little cry of surprise.One of the big trees had been partly chopped through, and standing beside it, with an uplifted axe in his hands, was a man made entirely of tin. His head and arms and legs were jointed upon his body, but he stood perfectly motionless, as if he could not stir at all. (BAUM, 2003, p. 52)
Quando Dorothy e
seus amigos encontra o Leão Covarde, no livro ele chega a desferir alguns
golpes conta o Espantalho e o Lenhador de Lata; no filme, ele apenas chama eles
para lutarem. Tal qual no livro, quando o Leão tenta atacar Totó, Dorothy lhe dá
um tapa na cara.
Just as he [o Lenhador
de Lata] spoke there came from the forest a terrible roar, and the next moment
a great Lion bounded into the road. With one blow of his paw he sent the
Scarecrow spinning over and over to the edge of the road, and the he struck the
Tin Woodman with his sharp claws. But, to the Lion’s surprise, he could make no
impression on that tin, although the Woodman fell over i the road and lay still.
Little Toto, now that he
had an enemy to face, ran barking towards the Lion, and the great beast had
opened his mouth to bite the dog, where Dorothy, fearing Toto would be killed,
and heedless of danger, rushed forward and slapped the Lion upon his nose as
hard as she could (...) (BAUM, 2003, p. 62-64)
O filme não entra em detalhes sobre
os Macacos Alados, como são convocados ou sua origem (ver item 3.3). Contudo,
nesta cena vemos o chefe dos Macacos entregando algo que parece ser um gorro
para a Bruxa Malvada do Oeste, em alusão ao Gorro de Outro do livro – esta é
uma passagem que dura segundos e apenas quem leu a obra consegue identificar.
There was, in her
cupboard, a Golden Cap, with a circle of diamonds and rubies running round it.
This Golden Cap had a charm. Whoever owned it could call three times upon the
Winged Monkeys, who would obey any order they were given. But no person could command
these strange creatures more than three times. Twice already the Wicked Witch
had used the charm of the Cap. Once was when she had made the Winkies her
slaves, and set herself to rule over their country. The Winged Monkeys had
helped her do this. The second time was when she had fought against the Great
Oz himself, and driven him out of the land of the West. The Winged Monkeys had
also helped her in doing this. Only once more could she use this Golden Cap,
for which reason she did not like to do so until all her other powers were
exhausted. But now that her fierce wolves and her wild crows and her stinging
bees were gone, and her slaves had been scared away by the Cowardly Lion, she
saw there was only one way left to destroy Dorothy and her friends. (BAUM,
2003, 127-128)
A própria adaptação do Macaco Alado é
bem fiel à ilustração do livro original, com o rosto azul:
Cidade das Esmeraldas é assim
descrita e, em que pese o fato deles não usarem óculos, é reproduzida fielmente
(com exceção do Cavalo de Cores Diferentes):
Even with eyes protected
by the green spectacles, Dorothy and her friends were at first dazzled by the
brilliancy of the wonderful City. The streets were lined with beautiful houses
all built of green marble and studded everywhere with sparkling emeralds. They
walked over a pavement of the same green marble, and where the blocks were
joined together were rows of emeralds, set closely, and glittering in the
brightness of the sun. The window panes were of green glass; even the sky above
the City had a green tint, and the rays of the sun were green.
There were many people,
men, women, and children, walking about, and these were all dressed in green
clothes and had greenish skins. They looked at Dorothy and her strangely
assorted company with wondering eyes, and the children all ran away and hid
behind their mothers when they saw the Lion; but no one spoke to them. Many
shops stood in the street, and Dorothy saw that everything in them was green.
Green candy and green pop corn were offered for sale, as well as green shoes,
green hats, and green clothes of all sorts. At one place a man was selling
green lemonade, and when the children bought it Dorothy could see that they
paid for it with green pennies.
There seemed to be no
horses nor animals of any kind; the men carried things around in little green
carts, which they pushed before them. Everyone seemed happy and contented and
prosperous.
The Guardian of the
Gates led them through the streets until they came to a big building, exactly
in the middle of the City, which was the Palace of Oz, the Great Wizard. There
was a soldier before the door, dressed in a green uniform and wearing a long
green beard (...) (BAUM, 2003, pp. 105-106)
No filme, quando eles chegam na
Cidade das Esmeraldas eles são muito bem recebidos e inclusive passam por uma
“sessão de limpeza”. No filme, ocorre algo análogo, mas apenas com o Lenhador
de Lata e após eles terem vencido a Bruxa Malvada do Oeste – veja as figuras
abaixo:
Na primeira vez
que temos contato com Oz, ele se revela como uma Cabeça imensa pairando sobre o
Trono:
But what interested
Dorothy most was the big throne of green marble that stood in the middle of the
room. It was shaped like a chair and sparkled with gems, as did everything
else. In the center of the chair was an enormous Head, without a body to
support it or any arms or legs whatever. There was no hair upon this head, but
it had eyes and a nose and mouth, and was much bigger than the head of the
biggest giant (BAUM, 2003, pp. 109-111)
Dorothy vence a Bruxa
Malvada do Oeste de modos distintos no livro e no filme (ver item 3.3), mas a
adaptação permanece fiel:
This made Dorothy so
very angry that she picked up the bucket of water that stood near and dashed it
over the Witch, wetting her from head to foot.
Instantly the wicked
woman gave a loud cry of fear, and then, as Dorothy looked at her in wonder,
the Witch began to shrink and fall away.
"See what you have
done!" she screamed. "In a minute I shall melt away."
"I'm very sorry,
indeed," said Dorothy, who was truly frightened to see the Witch actually
melting away like brown sugar before her very eyes.
"Didn't you know
water would be the end of me?" asked the Witch, in a wailing, despairing
voice.
"Of course
not," answered Dorothy. "How should I?"
"Well, in a few
minutes I shall be all melted, and you will have the castle to yourself. I have
been wicked in my day, but I never thought a little girl like you would ever be
able to melt me and end my wicked deeds. Look out—here I go!"
With these words the Witch
fell down in a brown, melted, shapeless mass and began to spread over the clean
boards of the kitchen floor. Seeing that she had really melted away to nothing,
Dorothy drew another bucket of water and threw it over the mess. She then swept
it all out the door. After picking out the silver shoe, which was all that was
left of the old woman, she cleaned and dried it with a cloth, and put it on her
foot again. Then, being at last free to do as she chose, she ran out to the
courtyard to tell the Lion that the Wicked Witch of the West had come to an
end, and that they were no longer prisoners in a strange land. (BAUM, 2003, pp.
135-136)
Dorothy vence a Bruxa
Malvada do Oeste de modos distintos no livro e no filme (ver item 3.3), mas a
adaptação permanece fiel:
This made Dorothy so
very angry that she picked up the bucket of water that stood near and dashed it
over the Witch, wetting her from head to foot.
Instantly the wicked
woman gave a loud cry of fear, and then, as Dorothy looked at her in wonder,
the Witch began to shrink and fall away.
"See what you have
done!" she screamed. "In a minute I shall melt away."
"I'm very sorry,
indeed," said Dorothy, who was truly frightened to see the Witch actually
melting away like brown sugar before her very eyes.
"Didn't you know
water would be the end of me?" asked the Witch, in a wailing, despairing
voice.
"Of course
not," answered Dorothy. "How should I?"
"Well, in a few
minutes I shall be all melted, and you will have the castle to yourself. I have
been wicked in my day, but I never thought a little girl like you would ever be
able to melt me and end my wicked deeds. Look out—here I go!"
With these words the Witch
fell down in a brown, melted, shapeless mass and began to spread over the clean
boards of the kitchen floor. Seeing that she had really melted away to nothing,
Dorothy drew another bucket of water and threw it over the mess. She then swept
it all out the door. After picking out the silver shoe, which was all that was
left of the old woman, she cleaned and dried it with a cloth, and put it on her
foot again. Then, being at last free to do as she chose, she ran out to the
courtyard to tell the Lion that the Wicked Witch of the West had come to an
end, and that they were no longer prisoners in a strange land. (BAUM, 2003, pp.
135-136)
The Lion thought it
might be as well to frighten the Wizard, so he gave a large, loud roar, which
was so fierce and dreadful that Toto jumped away from him in alarm and tipped
over the screen that stood in a corner. As it fell with a crash they looked that
way, and the next moment all of them were filled with wonder. For they saw,
standing in just the spot the screen had hidden, a little old man, with a bald
head and a wrinkled face, who seemed to be as much surprised as they were. The
Tin Woodman, raising his axe, rushed toward the little man and cried out,
"Who are you?" "I am Oz, the Great and Terrible," said the
little man, in a trembling voice. "But don't strike me—please don't—and
I'll do anything you want me to." (BAUM, 2003, p. 156)
Ao final, Dorothy descobre que apenas
precisa bater os calcanhares três vezes e pensar aonde quer ir, que os Sapatos
– prata no livro, rubi no filme – a levariam em um piscar de olhos.
Dorothy now took Toto up
solemnly in her arms, and having said one last good-bye she clapped the heels
of her shoes together three times, saying:
O
filme difere um pouco do livro, podendo ser considerado inclusive mais curto
que este. Segundo RHODES e JAHANGIR, pode-se encontrar quarenta grandes
diferenças entre o livro e a adaptação cinematográfica. Como semelhanças, temos
o pano de fundo de ambas: Dorothy como garota solitária do Kansas que se vê
transportada para o Mundo Mágico de Oz após a passagem de um ciclone. Em sua
empreitada para retornar ao seu lar, ela se junta a um Espantalho sem cérebro,
um Lenhador de Lata sem coração e um Leão sem coragem que, juntos, vencem a
Bruxa Malvada do Oeste, descobrem a verdadeira identidade do Grande e Terrível
Oz e, no final, a pobre garota consegue retornar para junto de sua família.
No
tocante às diferenças, primeiro vou falar o que está presente no livro e, em
seguida, exporei em que aspectos o filme inova. Os episódios que estão somente
no livro, em minha leitura, são: (i) Dorothy recebe o beijo na testa da Bruxa
Boa do Norte, que a protege dos perigos e contra a Bruxa Malvada do Oeste; (ii)
fuga dos Kalidahs, criaturas monstruosas com corpo de urso e cabeça de tigre;
(iii) resgate do Espantalho por uma Cegonha, pois ele ficou preso no meio de um
rio que tentavam atravessar; (iv) somente o Leão fica adormecido no Campo de
Papoulas e é resgatado pelos ratos, súditos da Rainha dos Ratos do Campo, com a
ajuda de uma carroça fabricada pelo Lenhador de Lata; (v) antes de chegarem à
Cidade das Esmeraldas, os quatro se hospedam na casa de um dos moradores do
País de Oz; (vi) eles vestem óculos com lentes verdes para entrar na Cidade;
(vii) o Mágico recebe um por vez e toma formas diferentes para cada um – para
Dorothy aparece como uma Cabeça imensa (como no filme), para o Espantalho como
uma linda Mulher, para o Lenhador de Lata como um Monstro terrível e para o
Leão Covarde como uma Bola de Fogo; (viii) eles vão expressamente à Terra dos
Winkies, onde fica o castelo da Bruxa Malvada do Oeste – no filme, não
menciona-se a existência dos Winkies; (ix) no caminho para o Castelo, eles são
atacados por Lobos, Corvos e Abelhas (no filme, a Bruxa diz que enviou insetos,
em clara alusão às abelhas, mas não os especifica); (x) os Winkies, por ordem
da Bruxa, tentam atacar o grupo mas fogem; (xi) os Macacos Alados são chamados
com a ajuda do Gorro de Ouro, que só podia ser utilizado três vezes pelo mesmo
dono (no livro, ao convoca-los a Bruxa utilizou-o pela terceira vez); (xii) a
Bruxa escraviza Dorothy e prende o Leão em uma jaula, fazendo-o passar fome;
(xiii) a Bruxa tinha medo de água e do escuro; (xiv) a feiticeira colocou uma
barra de ferro invisível para que a menina tropeçasse e deixasse de usar os
Sapatos de Prata; (xv) Dorothy joga água na Bruxa por causa dessa artimanha que
ela fez; (xvi) ela salva o Espantalho e o Lenhador de Lata, que haviam perecido
nas mãos dos Macacos Alados; (xvii) eles continuam no Castelo após a destruição
da Bruxa, até que um dia se lembram da promessa de Oz e vão ao seu encontro;
(xviii) eles voltam à Cidade das Esmeraldas com a ajuda dos Macacos Alados (no
livro, eles se utilizam outras duas vezes os serviços dos Macacos, antes de
passarem o Gorro de Ouro à Bruxa do Norte); (xix) Oz é desmascarado porque Totó
cai em cima do seu biombo em função do rugido do Leão; (xx) Oz era de Omaha, no
Estado de Nebraska (e não do Kansas); (xxi) a Cidade das Esmeraldas não era
verde, mas branca e se tornava verde por causa dos óculos; (xxii) o modo como
ele soluciona o problema de cada um é diferente no livro: colocou na cabeça do
Espantalho farinha de trigo misturada com vários alfinetes e agulhas; no
Lenhador de Lata, colocou no peito um coração de seda e recheado de serragem e
ao Leão Covarde, deu um líquido para tomar; (xxiii) o balão de Oz, no livro, se
perdeu quando ele chegou ao país, então ele e Dorothy fabricam um novo; (xxiv)
a aventura continua após a partida acidental de Oz: o Espantalho governa a
Cidade das Esmeraldas, O Lenhador de Lata se torna senhor no castelo da Bruxa
Malvada do oeste e o Leão se torna Rei dos Animais em uma floresta; além disso,
eles passam pelo País do Sul, no qual árvores impedem seu avanço, percorrem o
País de Louça e, por fim, chegam ao País dos Quadlings onde encontram a Bruxa
do Sul, Glinda (no filme, é a Bruxa do Norte quem salva Dorothy e é ela quem se
chama Glinda, não a Bruxa do Sul como no livro).
O
filme, por sua vez, inova nos seguintes aspectos: (i) a parte dedicada ao
Kansas é muito maior do que no livro, inclusive com riqueza de detalhes e
conflitos, como a Srta. Gulch tentar levar Totó ao xerife ou a presença do
Professor Marvel, que sequer estão na obra original; (ii) no livro, a casa de
Dorothy começa a rodopiar e ela percebe o que está acontecendo, ao passo que no
filme a janela de seu quarto se parte e ela adormece, no que pode ser uma
sugestão de que a viagem para Oz tenha sido um delírio da garota; (iii) no
filme, os Sapatos da Bruxa Malvada do
Leste que Dorothy usa na Terra de Oz são de Rubi, ao contrário do livro, no
qual são de Prata; (iv) no livro, antes de começar sua jornada, Dorothy troca
de roupa em sua casa, colocando um vestido de guingão, quadriculado de branco e
azul, amarrando uma touca cor-de-rosa na cabeça (no filme, ela permanece com o
mesmo vestido o tempo todo); (v) a Bruxa do Norte se chama Glinda (no livro não
há menção ao seu nome e Glinda é o nome da Bruxa do Sul); (vi) a Bruxa Malvada
do Oeste se constitui a verdadeira antagonista do filme, aparecendo e ameaçando
Dorothy várias vezes – desde sua chegada ao País dos Munchkins até sua chegada
na Cidade das Esmeraldas –, o que não ocorre no file; (vii) Dorothy e o
Espantalho encontram árvores que recusam maçãs a eles (isso não ocorre no
livro); (viii) a história do Lenhador de Lata é diferente no livro e no filme
(no livro, ele era um homem transformado em lata e no filme ele dá a entender
já foi criado como Homem de Lata); (ix) a Bruxa Malvada do Oeste usa uma Bola
de Cristal para ver os quatro amigos, o que não ocorre no livro; (x) no Campo
das Papoulas Mortais, é a Bruxa Malvada do Oeste quem enfeitiça as flores, ao
passo que no livro ela já são soníferas por natureza; (xi) no livro, quem salva
eles são os Ratos do Campo e no filme é a intervenção da Bruxa do Norte, que
faz nevar; (xii) no filme, os Macacos Alados são aliados da Bruxa, enquanto que
no livro eles são convocados através do Gorro de Ouro; (xiii) no livro, não há
o “Cavalo de Cores Diferentes” que eles encontram na Cidade das Esmeraldas;
(xiv) no livro, a Bruxa não escreve “renda-se, Dorothy” no céu sobre a Cidade; (xv) no livro, não há a cena em que
o Guardião dos Portões faz eles baterem na porta da Cidade ao invés de tocarem
a campainha; (xvi) no filme, eles se lavam quando chegam à Cidade na primeira
vez, mas no livro isso apenas ocorre quando eles voltam para lá depois de terem
derrotado a Bruxa Malvada do Oeste; (xvii)eles vão ao encontro de Oz porque o
Porteiro se comove com a história de Dorothy; (xviii) no filme, Oz pede que
eles tragam a vassoura da Bruxa e no livro ele pede expressamente que a matem;
(xix) no livro, os Macacos Alados sequestram Dorothy e o Leão e no filme apenas
a primeira; (xx) no filme, eles destroçam apenas o Espantalho, enquanto que no
livro o Lenhador de Lata também é alvo dos Macacos; (xxi) no filme, a Bruxa
ameaça jogar Totó no rio e usa uma ampulheta para ameaçar Dorothy, o que não se
encontra no livro; (xxii) no filme, Dorothy vê sua Tia Em pela Bola de Cristal
da Bruxa; (xxiii) no filme, o Espantalho, o Lenhador de Lata e o Leão Covarde
infiltram-se no Castelo, fantasiados de soldados, e resgatam Dorothy; (xiv) no
filme, a morte da Bruxa Malvada do Oeste é diferente em relação ao livro, pois
neste ela não ateia fogo ao Epsantalho; (xxv) no livro, quando eles voltam para
junto de Oz, ele não se aparece como nenhuma imagem, mas apenas uma Voz que
fala com eles, ao passo que no livro ele continua sendo a Cabeça imensa; (xxvi)
no filme, Totó puxa a cortina do biombo em que Oz ficava; (xxvii) no filme, Oz
soluciona de modo diferente a demanda de cada um: ele dá um diploma ao
Espantalho de PhP (Doutor em Pensamentologia), uma medalha por honra ao mérito
ao Leão Covarde, e uma condecoração ao Lenhador de Lata, em homenagem à sua
bondade; (xxviii) no filme, está escrito “Feira Estadual – Omaha” no balão de
Oz, em alusão à origem do mágico no livro; (xxix) no filme, Oz usa expressões
em latim, em pelo menos três ocasiões: ao conferir o diploma ao Espantalho, ao
final dessa cena e quando ele está no Balão; (xxx) no filme, assim que Oz parte
no Balão, a Bruxa do Norte aparece e explica como Dorothy pode voltar ao
Kansas; (xxxi) no final do filme, Dorothy está acamada e na presença dos seus
tios, trabalhadores e o Professor Marvel – sua tia chega a insinuar que ela
anda tendo “sonhos tolos”, enquanto que no livro ela está apenas na presença
dos seus tios (e não está doente).
4. Conclusão
A
história de O Mágico de Oz é
atemporal. Frank Baum conseguiu escreve ruma obra que sobreviveu à sua morte e,
em pleno século XXI, é extremamente atual. Da comparação entre o livro e o
filme, ficou claro que ambos compartilham a mesma história principal – Dorothy
tentando retornar para casa – mas o livro conta com alguns detalhes e episódios
que o filme optou por não reproduzir; entretanto, a obra cinematográfica
conseguiu, tal qual o livro, eternizar a história dos quatro amigos, muito em
parte à genialidade do diretor Victor Fleming.
A
adaptação para o cinema torna possível sairmos de nossa imaginação e
observarmos a spersonagens atuando bem à nossa frente. É por isso que SALLES
define o cinema como teatro romanceado ou romance teatralizado:
Teatro romanceado,
porque, como no teatro, ou melhor no espetáculo teatral, temos as personagens
da ação encarnadas em atores. Graças porém aos recursos narrativos do cinema,
tais personagens adquirem uma mobilidade, uma desenvoltura no tempo e no espaço
equivalente às das personagens de romance. Romance teatralizado, porque a
reflexão pode ser repetida, desta feita, a partir do romance. É a mesma
definição diversamente formulada (2007, p. 106)
Tentei
e acredito que consegui também aproximar o filme de uma outra obra clássica de
ficção científica: Star Wars. Ambos compartilham da mesma receita, os doze
passos estabelecidos por FLEMING – é impossível lê-los e não percebermos a
presença de Obi-Wan Kenobi ou o Mestre Yoda como mentores, ou a recusa do herói
(Luke) e a aproximação com a caverna oculta (Estrela da Morte), tal qual também
ocorre com Dorothy e as personagens criadas por Frank Baum e reproduzidas por
Victor Fleming. Com isso, acredito que atingi o objetivo deste seminário
virtual e finalizo com as palavras do sempre atual Anatol ROSENFELD (2007, p.
49): “somente quando o apreciador se entrega com certa inocência a todas as
virtualidades da grande obra de arte, esta por sua vez lhe entregará toda a
riqueza encerrada no seu contexto”.
PROPP, Vladimir Iacovlévitch. Morfologia do conto maravilhoso, seguida de
O estudo tipológico-estrutural do conto maravilhoso, de E. M. Meletínski, de
Estrutura e a forma, de Lévi-Strauss, e da resposta de Propp ao texto de
Lévi-Strauss. Tradução do russo de Jasna Paravich Sarhan ; organização e
prefácio de Boris Schnaiderman. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 2006.
ROSENFELD, Anatol. “Literatura e
Personagem”. In: CÂNDIDO, Antonio et al. A
Personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2007, pp. 9-49.
SALLES, Paulo Emílio. “A personagem
cinematográfica”. In: CÂNDIDO, Antonio et al. A Personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2007, pp. 103-119.
VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estruturas míticas
para escritores. Tradução de Ana Maria Machado. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2006.